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Gestão

O dia em que descobri que vendia pão francês no prejuízo

Equipe Blog Gestão Publicado em 14 de junho de 2026 Revisado em maio de 2026 6 min
Padeiro organizando pães franceses em uma padaria tradicional brasileira
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Era uma terça-feira de manhã quando o contador me ligou. A voz dele tava estranha, sabe? Aquele tom de quem não quer dar notícia ruim mas precisa. "Preciso que você sente comigo e a gente revise os custos da padaria. Tem alguma coisa errada."

Eu até ri. Errada como? A padaria tava cheia todo dia, o pão saía quentinho, a fila no caixa não parava. A gente vendia mais de mil pães franceses por dia. O movimento tava bom. Dinheiro entrando. Qual era o problema?

O problema era que eu não fazia ideia de quanto custava produzir cada pão.

Eu sabia o preço da farinha, claro. Sabia quanto pagava de energia. Sabia a folha de pagamento. Mas nunca tinha sentado pra rastrear quanto de cada insumo ia em cada receita, quanto de mão de obra eu embutia em cada fornada, quanto de gás eu queimava pra assar oitocentos pães. Eu precificava no susto — olhava o concorrente da esquina, via quanto ele cobrava, e colocava cinco ou dez centavos a menos pra não perder cliente.

Quando a gente abriu a planilha de verdade, o tombo foi feio. Cada pão francês me custava R$ 0,47 pra produzir. Eu vendia a R$ 0,45. Prejuízo de dois centavos por unidade. Mil pães por dia, vinte reais de prejuízo só no carro-chefe. Todo santo dia.

A ilusão de movimento é dinheiro

Sabe o que é pior? Eu achava que tava indo bem. A padaria vivia cheia, o caixa registrava venda o dia inteiro, eu via dinheiro entrar. Mas dinheiro entrando não é lucro. É receita. E receita sem controle de custo é ilusão.

O que me salvava era a margem dos outros produtos. O bolo, o sonho, o pão de queijo — esses eu precificava com mais cuidado porque eram receitas que eu tinha desenvolvido, então eu sabia direitinho o que entrava. Mas o pão francês? Aquilo era commodity na minha cabeça. Todo mundo faz, todo mundo vende barato, então eu vendia barato também.

Só que barato demais não atrai cliente fiel. Atrai caçador de promoção. E enquanto isso, eu trabalhava feito condenado pra bancar um produto que me dava prejuízo.

Esse erro é mais comum do que você imagina. Eu converso com dono de padaria toda semana, e a maioria precifica olhando pro lado, não olhando pra dentro. Pega o preço do vizinho, tira um pouquinho, e reza pra dar certo. Quando o fornecedor aumenta a farinha, a gente segura o preço com medo de perder cliente. Quando a energia sobe, a gente engole. Até que um dia a conta não fecha mais.

Por que a gente precifica no susto

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Tem três motivos principais, na minha experiência. O primeiro é preguiça mesmo — calcular custo de receita dá trabalho. Você precisa pesar insumo, cronometrar forno, ratear energia, dividir salário por hora trabalhada. É chato. É demorado. E no dia a dia da padaria, com funcionário faltando e massa crescendo, ninguém tem cabeça pra isso.

O segundo motivo é medo. Medo de descobrir que o preço real assusta o cliente. Se eu cobrar o que preciso pra ter margem saudável, será que o pessoal não vai pro concorrente? Aí a gente prefere não saber, e continua vendendo no escuro.

O terceiro — e esse é o mais perigoso — é achar que padaria se sustenta no volume. "Eu vendo muito, então tá tudo certo." Não tá. Volume sem margem é trabalho de graça. Você cansa, o time cansa, a máquina desgasta, e no fim do mês sobra menos do que devia.

Eu caí nos três. E paguei caro por isso.

Como eu virei o jogo (e você pode virar também)

Depois daquela reunião com o contador, eu passei um fim de semana inteiro dentro da padaria — vazia, sem cliente, sem pressa — refazendo as contas. Peguei cada receita, pesei cada ingrediente, cronometrei cada etapa. Anotei consumo de gás, de energia, de embalagem. Dividi o salário do padeiro pelas horas que ele passava em cada fornada.

Foi trabalhoso? Foi. Mas no final eu tinha uma planilha que mostrava, produto por produto, quanto me custava e quanto eu precisava cobrar pra ter margem decente. Não margem de sonho, não margem de shopping — margem honesta, que paga conta e deixa um resto pra reinvestir.

Aí veio a parte difícil: reajustar preço. Eu subi o pão francês pra R$ 0,55. Dez centavos. Parece pouco, mas na minha cabeça era um abismo. Fiquei com medo de esvaziar a loja.

Sabe o que aconteceu? Nada. Absolutamente nada. O cliente continuou comprando. Alguns reclamaram no primeiro dia, mas na semana seguinte tava todo mundo de volta. Porque o que segura cliente em padaria não é preço — é qualidade, atendimento, localização, costume. Dez centavos no pão não muda vida de ninguém. Mas pra mim, mudou tudo.

De vinte reais de prejuízo por dia, eu passei pra oitenta reais de lucro. Só no pão francês. Multiplica pelos outros produtos que eu ajustei, e no fim do mês a diferença bateu em quase três mil reais. Dinheiro que antes tava escorrendo pelo ralo.

O tal do markup — e por que ele não resolve sozinho

Tem gente que fala: "Ah, mas eu uso markup. Pego o custo e multiplico por 2,5." Ótimo. Mas custo de quê? Se você não sabe quanto custa produzir de verdade, o markup vira chute também. Você multiplica um número errado e chega num preço errado. Parece científico, mas continua sendo susto.

O markup funciona quando você tem custo real mapeado. Aí sim, você aplica a margem que faz sentido pro seu negócio, pro seu bairro, pro seu público. Mas sem custo correto, markup é só maquiagem em cima de erro.

O que mudou de verdade na rotina

Hoje eu não preciso mais passar fim de semana refazendo planilha. Eu aprendi — do jeito mais dolorido possível — que gestão de padaria não é feeling, é número. E número precisa de ferramenta.

Depois de alguns meses quebrando a cabeça com Excel, eu migrei pra um sistema que calcula custo de receita automaticamente. Toda vez que o fornecedor reajusta farinha ou fermento, o sistema recalcula o custo de cada produto. Eu vejo na hora se o preço que tô cobrando ainda faz sentido. Não preciso adivinhar, não preciso esperar o contador me ligar com voz de velório.

E olha, não é sobre ter tecnologia de ponta. É sobre ter visibilidade. Saber se aquele pão que vende feito água quente tá te dando lucro ou te afundando. Saber se vale a pena fazer promoção no fim do dia ou se é melhor ajustar a produção. Saber onde dá pra apertar e onde dá pra investir.

Eu ainda uso caderninho pra anotar ideia de receita nova, ainda confio no faro pra sentir quando o cliente tá insatisfeito. Mas preço? Preço eu não tiro mais da cabeça. Preço eu tiro do custo real.

Se você se reconheceu nessa história

Olha, eu não vou te dizer que é fácil. Sentar pra fazer conta de custo dá preguiça mesmo, principalmente quando a padaria tá pegando fogo e você tem mil coisas pra resolver. Mas eu te garanto uma coisa: é menos doloroso do que descobrir — do jeito que eu descobri — que você trabalha de graça.

Se você ainda precifica olhando pro concorrente, se ainda segura reajuste com medo, se ainda acha que movimento é sinônimo de lucro, para. Respira. E faz a conta. De verdade. Pega uma receita, qualquer uma, e descobre quanto ela custa. Depois compara com o preço que você cobra.

Pode ser que você leve um susto, como eu levei. Mas melhor levar o susto agora do que daqui a seis meses, quando a reserva acabou e você não sabe mais de onde tirar.

E se você quiser uma ajuda pra não precisar passar o fim de semana inteiro com calculadora na mão, dá uma olhada no vhsys. É o sistema que eu uso hoje — ele calcula custo de receita, avisa quando o preço tá defasado, e me dá uma visão clara de onde tá entrando e onde tá saindo dinheiro. Não é milagre, mas é o tipo de ferramenta que eu queria ter tido naquela terça-feira em que o contador me ligou.

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