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Gestão

Controle de rotas de entrega: o dia que perdi R$ 4 mil porque confiei no GPS

Reginaldo Stocco · 7 min de leitura
Bearded man in a blue hoodie uses smartphone inside vehicle, ID lanyard visible. Professional setting.
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Sexta-feira, seis da tarde. Eu tô no depósito com o dono de uma distribuidora de bebidas em Guarulhos — vamos chamar ele de Carlos — e o celular não para de tocar. Três motoristas ligando ao mesmo tempo. Um tá parado na mesma rua que o outro passou há vinte minutos. Outro voltou pro depósito pra pegar uma carga que esqueceu. O terceiro jurou que seguiu o GPS certinho, mas entregou fora do horário combinado e o bar recusou receber.

Carlos olhou pra mim e disse: 'Mas eu mandei tudo direitinho no WhatsApp, com endereço e tudo'. Era verdade. Ele tinha mandado. O problema é que mandar endereço não é controlar rota.

Naquele dia, a distribuidora rodou 340 km pra fazer entregas que cabiam em 180. Pagou quatro horas extras que não precisava. E perdeu dois clientes que não aceitaram receber fora do combinado. No fim da conta, a sexta-feira custou uns R$ 4 mil a mais do que deveria — tudo porque o controle de rotas de entrega era, na prática, cada motorista se virando como dava.

Por que controle de rotas de entrega não é só mandar endereço no WhatsApp?

Porque endereço é dado bruto. Rota é decisão.

Quando você joga dez endereços pro motorista e fala 'entrega aí', ele vai fazer o quê? Abrir o Google Maps e seguir a ordem que vier na cabeça. Ou pior: a ordem que o aplicativo sugerir, que quase sempre prioriza a rua mais rápida naquele exato segundo — não o melhor sequenciamento considerando horário de recebimento, volume da carga e tempo de descarga.

O motorista do Carlos saiu com doze pontos de entrega. Começou pelo mais longe porque 'já tava perto da marginal'. Aí teve que voltar pra uma entrega urgente que ele pulou. No meio do caminho, parou num cliente que só recebe depois das três — era meio-dia. Resultado: rodou, queimou diesel, perdeu tempo e ainda entregou atrasado em metade dos pontos.

Controle de rota de verdade significa decidir antes: quem vai primeiro, por quê, em que sequência, respeitando janela de horário e otimizando quilometragem. Não é o motorista que monta a rota na rua — é você, ou o sistema, que monta antes dele sair.

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Primeira coisa: pare de mandar a lista de clientes sem ordem definida. Se você faz isso, tá terceirizando a decisão mais cara da operação pro cara que tá dirigindo.

Comece mapeando as restrições reais de cada cliente. Tem bar que só recebe de manhã. Tem restaurante que não aceita entrega na hora do almoço. Tem mercadinho que fecha às cinco. Essas janelas de horário não são frescura — são o limite que separa entrega aceita de entrega recusada.

Segundo passo: agrupe por região, mas respeite a janela. Não adianta agrupar tudo que é zona leste se metade só recebe de tarde e a outra metade só de manhã. Você vai ter que fazer duas viagens ou aceitar que vai entregar fora do horário — e aí o cliente não recebe.

Terceiro: monte a sequência considerando volume e tempo de descarga. Se você tem uma entrega de 200 caixas e três de 20, não faz sentido colocar a grande no meio da rota. Você perde meia hora descarregando e ainda atrasa o resto. Entrega pesada vai no começo ou no fim, nunca no meio.

E quarto — o que quase ninguém faz: revise a rota todo dia de manhã, antes do caminhão sair. Cliente cancelou? Pedido novo entrou? Trânsito tá fechado em algum ponto? Se você não ajusta a rota na hora, o motorista vai ter que improvisar na rua, e aí você perde o controle de novo.

O que fazer quando o motorista 'se perde' ou entrega fora da ordem?

Eu já ouvi muito dono de distribuidora reclamar que o motorista não segue a rota. 'Mandei ele ir em tal ordem, ele foi em outra.' Aí eu pergunto: você deu a rota impressa, com mapa, com sequência numerada? Ou mandou no WhatsApp, em três mensagens separadas, misturando endereço com observação?

Porque se a orientação não tá clara, o erro não é só do motorista. É do processo.

O Carlos imprimia uma folha A4 com os endereços em ordem alfabética. O motorista olhava aquilo e decidia sozinho por onde começar. Não tinha numeração, não tinha mapa, não tinha horário anotado. Óbvio que ia dar errado.

O que funciona: rota impressa, numerada de 1 a X, com horário de chegada sugerido e observação do tipo 'recebe só até 14h' ou 'descarga demorada'. Se você tem mais de um veículo saindo no mesmo dia, cada motorista recebe a sua folha, com o nome dele, a placa do caminhão e a quilometragem prevista.

E tem outro ponto que quase ninguém fala: o motorista precisa ter um jeito de avisar quando algo sai do planejado. Cliente não tava, portão fechado, rua interditada. Se ele não tem como reportar na hora, ele vai resolver sozinho — e aí você perde rastreabilidade.

Distribuidora que leva controle de rota a sério tem contato direto com o motorista durante o turno. Pode ser WhatsApp, pode ser ligação, pode ser um sisteminha que manda notificação a cada entrega. O importante é saber, em tempo real, se a rota tá sendo cumprida ou se já virou improviso.

Vale a pena usar sistema de gestão pra controle de rotas de entrega ou dá pra fazer na planilha?

Dá pra fazer na planilha. O Carlos fez durante cinco anos. Funcionou? Mais ou menos. A planilha registra o planejado, mas não avisa quando o motorista sai da rota, não recalcula automaticamente quando um pedido novo entra, e não te dá visão do que tá acontecendo agora — só do que você planejou ontem.

Planilha exige que você refaça a rota manualmente todo dia. Você abre, olha os pedidos do dia, lembra quem recebe quando, tenta encaixar tudo, torce pra não esquecer nenhuma restrição. Funciona quando você tem um veículo e dez entregas. Quebra quando você tem três veículos, trinta entregas e cliente ligando pedindo previsão de chegada.

Depois daquela sexta-feira desastrosa, o Carlos começou a testar um sistema que fazia roteirização automática. Ele cadastrou os clientes, marcou as janelas de horário, e o sistema passou a sugerir a ordem de entrega considerando tudo isso. Não era perfeito — ele ainda ajustava na mão quando fazia sentido — mas cortou o tempo de planejamento pela metade e reduziu quilometragem rodada em uns 20% no primeiro mês.

Eu não digo que planilha não serve. Digo que planilha tem teto. Se você tem uma operação pequena, controlada, previsível, vai funcionar. Mas se você tá crescendo, se pedido muda no meio do dia, se cliente reclama de atraso toda semana, a planilha vira gargalo — e você vai gastar mais tempo ajustando rota do que rodando ela.

Como saber se o problema tá na rota ou no motorista?

Essa é a pergunta que todo dono de distribuidora faz quando a entrega atrasa. 'Será que o cara não quer trabalhar ou será que eu planejei errado?'

A resposta honesta: na maioria das vezes, é os dois.

Tem motorista que enrola, para pra almoçar duas horas, faz rota particular no meio da entrega. Isso existe, e você precisa de rastreamento e controle pra pegar. Mas também tem rota impossível — aquela que você monta no papel, parece bonitinha, e na prática não fecha porque você esqueceu que o trânsito da zona sul às quatro da tarde não anda.

O jeito de saber é medir. Quantos quilômetros o caminhão rodou? Quantas horas ficou parado? Qual a média de tempo por entrega? Se você não tem esses números, tá chutando.

O Carlos começou a anotar, todo dia, três coisas: km rodado, número de entregas feitas e hora de volta ao depósito. Depois de duas semanas, ele viu que um dos motoristas sempre rodava 30% a mais que os outros. Conversou, descobriu que o cara tava fazendo a rota na ordem inversa 'porque conhecia melhor o caminho'. Ajustou, explicou o porquê da sequência, e o problema sumiu.

Outro motorista voltava todo dia às sete da noite, uma hora depois dos outros, com a mesma quantidade de entrega. Aí o Carlos foi junto no caminhão um dia e viu: o cara parava em todo posto, todo bar, toda padaria. Não era má vontade — era falta de cobrança. No dia que ele soube que tava sendo medido, voltou a chegar no horário.

Problema de rota você resolve com planejamento. Problema de comportamento você resolve com métrica e conversa. Mas pra saber qual é qual, você precisa ter o número na mão.

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Perguntas frequentes

Como calcular o tempo ideal de uma rota de entrega?
Some o tempo de deslocamento entre pontos (use ferramentas de mapa pra estimar), o tempo médio de descarga em cada parada (varia de 10 a 40 minutos conforme volume) e adicione uma margem de 15 a 20% pra imprevistos como trânsito ou espera no cliente. Rota bem planejada raramente estoura esse tempo em mais de meia hora.
Quantas entregas um caminhão consegue fazer por dia?
Depende da distância entre pontos e do tempo de descarga. Em área urbana, com paradas próximas e descarga rápida, um caminhão faz entre 12 e 18 entregas em um turno de oito horas. Em rotas longas ou com descarga demorada, esse número cai pra 6 a 10. O limite real é tempo disponível, não capacidade do veículo.
O que fazer quando o cliente recusa entrega fora do horário combinado?
Registre a ocorrência, reprograme a entrega pro próximo dia respeitando a janela de horário e revise a rota que causou o atraso. Se o atraso foi por erro de planejamento, ajuste o sequenciamento. Se foi por imprevisto, comunique o cliente antes da próxima entrega. Cliente que recusa fora do horário tem razão — o combinado existe pra ser cumprido.
Como evitar que motorista mude a rota por conta própria?
Entregue rota impressa com sequência numerada e justificativa clara (horário, urgência, proximidade). Explique o motivo da ordem escolhida, não apenas imponha. Estabeleça que mudança de rota só pode acontecer com autorização prévia, e crie canal pra motorista reportar imprevistos em tempo real. Quando ele entende o porquê, respeita mais a orientação.
Qual a diferença entre roteirização e controle de rotas de entrega?
Roteirização é o planejamento prévio: definir a sequência ideal de paradas antes do veículo sair. Controle de rotas é o acompanhamento durante a execução: saber se a rota planejada está sendo seguida, se houve desvios, atrasos ou problemas. Um não funciona sem o outro — você precisa planejar bem e acompanhar de perto.

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