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Gestão

Controle de rotas de entrega: o mapa do caos ou o caminho do lucro?

Reginaldo Stocco · 6 min de leitura
Candid moment of a deliveryman handing a package to a woman outside by a van.
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O telefone toca, você olha no relógio: 8h15 da manhã. Já sabe que não é notícia boa. Do outro lado da linha, é o seu motorista, o Cláudio. Ele tá parado no trânsito na marginal, do outro lado da cidade.

“Chefe, aquele cliente da última hora, o da loja de tintas... o endereço que ele passou no zap era da casa dele, não da loja. A loja é lá perto do centro. Vou ter que cruzar tudo de novo. A entrega do mercado grande vai atrasar, não tem jeito.”

Enquanto você desliga, o telefone do escritório já tá tocando de novo. É o gerente do mercado grande, perguntando onde é que tá a mercadoria dele. Você passa o resto da manhã nesse pingue-pongue: acalmando cliente, dando bronca no motorista (que nem tem culpa), tentando reorganizar um dia que mal começou e já virou um caos.

Se essa cena te soa familiar, senta aqui e pega um café. A gente precisa conversar. Você não tem um problema de logística, você tem um problema de vício em apagar incêndio. Você tá gerenciando sua distribuidora no modo reativo, e isso tá custando o seu lucro, sua paz e o cabelo que você ainda tem.

Por que o seu 'jeitinho' de organizar as entregas está matando a sua margem?

Eu sei como é. A gente começa pequeno, com uma van, talvez duas. Um grupo de WhatsApp com os motoristas, uma planilha que a gente atualiza quando dá tempo... parece que funciona. O cliente liga pedindo um encaixe de última hora e você, pra não perder a venda, diz “deixa comigo!”. Manda um áudio pro motorista e reza pra ele estar perto.

Esse é o “mapa do caos”. Ele é feito de improviso, boa vontade e uma quantidade enorme de custos invisíveis.

Pensa comigo: cada desvio da rota original é mais combustível queimado. Cada hora a mais que seu motorista fica na rua por causa de um trajeto mal planejado é hora extra ou banco de horas estourando. Cada pneu gasto rodando à toa, cada troca de óleo antecipada... isso tudo sai do seu bolso. No fim do mês, você olha pro faturamento, que até foi bom, mas a conta não fecha. O dinheiro sumiu. Ele não sumiu, ele foi queimado no tanque de combustível de uma rota que não fazia sentido.

O problema é que o "jeitinho" não escala. Com três veículos, vira uma loucura. Com cinco, é impossível. Você vira um operador de rádio, não um dono de empresa. Sua função passa a ser resolver o problema que a falta de planejamento criou.

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A boa notícia é que sair do caos não exige um investimento milionário ou um diploma em logística da NASA. Exige disciplina e um método. Na minha experiência, o primeiro passo é parar de pensar em “entregas” e começar a pensar em “cargas” e “regiões”.

Primeiro, setorize. Pegue um mapa da sua cidade e divida ele. Segunda-feira é dia de entregar na Zona Norte. Terça-feira, na Zona Leste e assim por diante. Comunique isso para os seus clientes. “Fulano, pra sua região, nossas entregas são às segundas e quintas.” Acabou a ansiedade. O cliente se programa, você se programa.

Segundo, estabeleça uma hora de corte. É a regra mais importante e a que mais vai te dar paz. Por exemplo: “Pedidos feitos e confirmados até as 16h de hoje entram na rota de amanhã. O que entrar depois, vai para a rota do dia seguinte.” Seja firme. No começo, um ou outro cliente vai chiar. Mas quando eles perceberem que a sua entrega se tornou confiável e pontual, eles vão respeitar a regra. Previsibilidade vale mais do que um encaixe desesperado.

Com essas duas regras, a mágica acontece. No fim do dia, às 16h, você não tem mais um monte de pedidos soltos. Você tem uma “carga da Zona Norte” pra amanhã. Aí sim, você vai para o mapa (pode ser o Google Maps mesmo, no começo) e traça a sequência de paradas mais inteligente. Qual a primeira? Qual a última? Onde o trânsito é pior em cada horário? Isso é fazer controle de rotas de entrega.

Fazer isso na mão, com papel ou planilha, funciona até certo ponto. O problema é o tempo que se gasta e o risco de erro humano. A gente digita um número errado, esquece um pedido... aí o caos volta. É nesse ponto que um sistema de gestão integrado faz toda a diferença, porque ele já puxa os pedidos do comercial, mostra os endereços no mapa e ajuda a montar a carga de forma quase automática. Você para de ser digitador e vira estrategista.

O motorista resistiu à mudança. O que eu faço?

Essa é clássica. Você passa o fim de semana planejando as rotas, chega na segunda-feira todo animado com os papéis impressos com a sequência e entrega pro Cláudio. Ele olha praquilo, olha pra você e solta: “Chefe, mas eu sempre fiz diferente. Desse jeito aqui não vai dar certo, o trânsito ali é ruim.”

A primeira reação é ficar bravo. “Eu que sou o dono, eu que sei!”. Calma. Respire. O Cláudio não está fazendo isso pra te desafiar. Ele tem o conhecimento da rua, e isso é valioso. Mas ele tá acostumado com a “liberdade” do caos, onde ele decidia o próprio caminho.

O segredo aqui é envolver, não impor. Chame o Cláudio pra conversar. Abra o mapa com ele. Mostre o porquê daquela sequência. “Cláudio, eu coloquei essa entrega primeiro porque é contra o fluxo do trânsito da manhã. E deixei aquela do centro por último, porque a essa hora a área de carga e descarga já vai estar livre.”

Peça a opinião dele. “O que você acha? Tem alguma rua aqui que eu não considerei?” Transforme o motorista em um parceiro do planejamento. Mostre pra ele que uma rota otimizada significa que ele talvez consiga terminar o dia mais cedo, sem correria e sem estresse. Que a meta não é controlá-lo, mas fazer o trabalho de todo mundo render mais, inclusive o dele.

Quando a equipe entende o “porquê” e vê que a mudança também é boa pra ela, a resistência diminui. O objetivo é que a empresa inteira fale a mesma língua: a da eficiência.

E como eu sei se esse tal controle de rotas está funcionando?

Você não precisa de um painel de avião cheio de gráficos. Você precisa olhar para os números certos, os que mostram se o dinheiro está ficando na empresa ou indo pelo ralo.

Minha sugestão é acompanhar poucas e boas métricas. Comece com estas:

  • Custo de combustível por veículo: Compare o gasto semanal ou mensal. Se você está planejando as rotas, a tendência é esse número começar a cair.
  • Número de entregas por dia: Com rotas otimizadas, cada veículo consegue fazer mais paradas no mesmo período. Esse número tem que subir.
  • Quilometragem média por rota: Seus carros estão rodando menos para entregar a mesma coisa ou mais? Bingo! Isso é eficiência pura.
  • Reclamações de atraso: Essa é a mais óbvia. O telefone parou de tocar com cliente bravo? É o melhor sinal de que você está no caminho certo.

Anote isso numa planilha simples no começo. A disciplina de medir é o que separa o amador do profissional. O amador “acha” que melhorou. O profissional sabe, porque ele tem os números pra provar.

Claro, ficar catando informação de odômetro, nota de posto de gasolina e planilha de pedido é um trabalho que toma tempo. É por isso que, depois de um tempo, a maioria dos empresários que eu conheço migra pra um sistema de gestão. Lá, você aperta um botão e o relatório com o custo por entrega, a performance do veículo e a satisfação do cliente aparece na sua tela. Ele te dá a visão do todo, sem que você precise passar horas juntando os pedaços.

No fim das contas, ter um bom controle de rotas de entrega não é sobre ter o melhor software ou o mapa mais colorido. É sobre mudar a mentalidade. É sair do banco do passageiro da sua própria empresa e assumir o volante. É trocar o estresse de ser um bombeiro pela satisfação de ser um arquiteto, que planeja e constrói um negócio lucrativo e organizado.

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Perguntas frequentes

Qual a melhor forma de agrupar entregas por região (setorização)?
Comece com um mapa da sua área de atuação e use divisões geográficas claras, como grandes avenidas, rios ou bairros. Agrupe os clientes por CEP ou proximidade e defina dias fixos da semana para cada setor. Comunique essa nova política aos clientes com antecedência para que eles possam se programar. A ideia é criar rotas densas, com muitas paradas em uma área pequena.
Preciso de um software caro para fazer controle de rotas de entrega?
Não para começar. Uma combinação de planilhas bem organizadas e aplicativos de mapa gratuitos, como o Google Maps, pode ser suficiente para uma operação pequena. O software se torna necessário quando o volume cresce, pois ele automatiza a criação de rotas, integra-se aos pedidos e fornece relatórios, economizando tempo e reduzindo erros humanos.
Como lidar com entregas de urgência que aparecem no meio do dia?
Tenha uma política clara. Uma opção é criar uma 'taxa de urgência' para cobrir os custos extras do desvio. Outra é ter um veículo ou um período do dia dedicado a essas exceções, se a demanda justificar. O mais importante é não deixar que as exceções destruam o planejamento da rota principal. Avalie se o 'sim' para a urgência compensa o custo e o impacto na operação regular.
É uma boa ideia informar o cliente sobre a rota do entregador em tempo real?
Sim, é uma excelente prática para gerenciar expectativas. Enviar um link de rastreamento ou uma notificação de que 'o motorista está a caminho' reduz a ansiedade do cliente e diminui as ligações para a sua empresa perguntando sobre a entrega. Isso transmite profissionalismo e melhora a experiência do cliente, mas exige uma ferramenta que ofereça essa funcionalidade.
Quantas entregas um veículo consegue fazer por dia em média?
Não existe um número mágico, pois depende muito do tipo de produto, do tempo de descarga em cada cliente, do trânsito e da distância entre as paradas. Em vez de buscar uma média de mercado, concentre-se em aumentar a sua própria média. Se hoje seus carros fazem 15 entregas, um bom controle de rotas pode ajudar a chegar a 18, depois a 20, com o mesmo custo.

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