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Controle de estoque por grade: o dia que eu perdi R$ 8 mil por confiar no caderninho

Reginaldo Stocco · 8 min de leitura
Woman with dreadlocks using a laptop while sorting clothes in a loft for volunteer work.
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Fevereiro de 2019. Eu estava ajudando uma cliente que tinha uma loja de moda feminina no interior de São Paulo — duas funcionárias, movimento bom, aquele cheiro de roupa nova que você conhece bem. Ela anotava tudo num caderno: cada peça que entrava, cada venda, cada troca. Funcionava, até o dia que não funcionou mais.

Numa sexta à tarde, uma cliente pediu uma blusa P azul marinho. A vendedora olhou o caderno, viu que tinha três unidades registradas, foi buscar no estoque. Voltou de mãos vazias. Procurou de novo. Nada. A blusa simplesmente não estava lá. A cliente foi embora sem comprar.

No fim de semana, a dona da loja passou o sábado inteiro conferindo o caderno com o que tinha na loja. Resultado: 47 peças vendidas e não baixadas, 22 trocas de tamanho anotadas errado, 11 devoluções que voltaram pro estoque mas ficaram registradas como vendidas. Ela calculou que tinha perdido pelo menos R$ 8 mil em vendas nos últimos três meses — gente que foi embora porque o sistema dizia que tinha, mas não tinha.

Eu vi a planilha dela depois. Tinha uma coluna "Blusa Floral" e do lado "Qtd: 12". Só isso. Não dizia quantas eram P, M, G ou GG. Não dizia quantas eram azuis, vermelhas ou estampadas. Era um número solto no ar. E quando você vende roupa, número solto não serve pra nada.

O que é controle de estoque por grade e por que ele existe?

Controle de estoque por grade é o nome bonito pra uma coisa simples: registrar cada combinação de tamanho e cor como se fosse um produto diferente. Porque, na prática, é um produto diferente.

Quando você compra uma camiseta do fornecedor, não vem "10 camisetas". Vem 2 P brancas, 3 M brancas, 2 M pretas, 2 G brancas, 1 G preta. Cada uma dessas combinações é uma grade. E se você não controlar isso separado, você vai vender a M branca achando que ainda tem, porque no total ainda "sobram 4 camisetas".

O problema do caderninho — e da planilha básica — é que ele não foi feito pra isso. Você anota "Camiseta Básica: 10 un". Aí vende uma M preta. Risca, coloca 9. Vende uma P branca. Risca, coloca 8. No fim da semana, o número tá certo, mas você não faz ideia do que sobrou. E quando chega uma cliente pedindo G preta, você não sabe se tem ou não sem ir lá olhar.

Eu já vi loja que fazia assim: anotava cada grade numa linha separada da planilha. "Camiseta Básica P Branca: 2", "Camiseta Básica P Preta: 1", e por aí vai. Funcionava melhor, mas virava uma planilha de 300 linhas pra 50 produtos. E toda vez que entrava mercadoria, era meia hora procurando a linha certa pra somar.

Por que a agenda e os horários viram bagunça sem controle de grade?

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Aqui é onde a coisa fica pior do que parece. Você acha que controle de estoque é só saber o que tem. Não é. É saber o que tem na hora que o cliente tá na sua frente.

Quando você não controla por grade, cada atendimento vira uma caça ao tesouro. A cliente pergunta se tem. Você fala "acho que sim", vai lá atrás, fuça nas caixas, volta, pede pra colega olhar no outro depósito, liga pra outra unidade se tiver. Enquanto isso, formou fila. A cliente que tava esperando desistiu. A vendedora que ia almoçar às 13h saiu às 14h30.

Eu trabalhei com uma loja que vendia lingerie. Grade complexa: tamanho de sutiã vai de 38 ao 48, cada um com copa A, B, C, D. Uma peça = 40 grades diferentes. Sem controle, a vendedora passava 10 minutos procurando um 42C que às vezes nem existia mais. A loja atendia 60 clientes por dia. Faça a conta: 10 minutos vezes 60 = 10 horas perdidas por dia só procurando peça.

E tem outro lado: você agenda a reposição de estoque baseado no feeling. "Tá sumindo camiseta, vou pedir mais." Aí pede 20 unidades. Chegam 4 P, 8 M, 6 G, 2 GG. Você precisava de M e G. As P e GG ficam paradas. Três meses depois, você tem 30 peças encalhadas que ninguém quer, e falta do tamanho que vende.

Sem saber exatamente o que sai e o que fica, você não consegue planejar compra, não consegue planejar promoção, não consegue nem planejar o horário da equipe — porque nunca sabe se vai ser dia corrido ou dia parado.

Como montar um controle de estoque por grade que funcione de verdade?

Vou te contar o que eu recomendo, na ordem. Primeiro: esqueça o caderninho. Sério. Caderno serve pra lista de compras do mês, não pra controlar 300 combinações de produto.

Se você ainda não quer sair da planilha, tudo bem — mas tem que ser planilha estruturada. Crie uma aba só pra estoque. As colunas são: Código do Produto | Nome | Cor | Tamanho | Quantidade | Localização. Cada linha é uma grade. Sempre.

Quando entra mercadoria, você abre a nota, e lança linha por linha. "Blusa Floral 001 | Azul | P | 3 | Prateleira A2". "Blusa Floral 001 | Azul | M | 5 | Prateleira A2". Parece trabalhoso? É. Mas é a única forma de não perder dinheiro.

Quando vende, você vai na linha da grade vendida e diminui. Não diminui do total geral. Diminui daquela cor e daquele tamanho. Se vendeu uma M azul, você tira da linha da M azul. Ponto.

Agora, a parte chata: isso só funciona se todo mundo seguir. Se a vendedora anota num papelzinho e lança no fim do dia, já era. Porque no meio do dia ela vai vender uma peça que já foi vendida de manhã e ainda não foi baixada. O controle tem que ser em tempo real, ou no máximo a cada venda, antes da próxima.

Eu já vi gente tentar fazer isso com planilha compartilhada no Google. Funciona se você tem uma vendedora só, ou se tem muita disciplina. Mas na prática, com duas ou três pessoas mexendo ao mesmo tempo, a planilha trava, alguém apaga sem querer, e você perde tudo.

É aqui que entra a real: planilha não foi feita pra isso. Ela aguenta, mas você vai gastar mais tempo organizando a planilha do que vendendo. Um sistema de gestão que já vem preparado pra grade elimina isso — você cadastra a peça uma vez, marca as variações de cor e tamanho, e ele gera as grades sozinho. Cada venda já baixa automático da grade certa. Mas se você ainda não tá nesse ponto, pelo menos estruture a planilha direito.

O que muda na rotina da loja quando você controla por grade?

A primeira coisa que muda é o atendimento. A vendedora olha o sistema (ou a planilha, se tiver bem feita) e fala na hora: "Tenho em azul M e G, em preto só P". A cliente escolhe, leva, pronto. Sem ir e voltar, sem "deixa eu ver", sem formar fila.

A segunda coisa é a reposição. Você abre o relatório (ou filtra a planilha) e vê: "Camiseta Básica M Branca: 1 unidade. Vendeu 12 este mês". Aí você sabe: pede mais M branca. Não pede G preta, porque tem 8 paradas. Você compra o que falta, não o que o fornecedor quer empurrar.

A terceira coisa — e essa é a que mais impacta — é a previsibilidade. Você passa a saber quanto tempo demora pra zerar cada grade. "Camiseta M preta dura 15 dias. Camiseta GG rosa dura 3 meses." Com isso, você monta promoção direcionada: queima a GG rosa com desconto, reabastece a M preta antes de faltar.

E a agenda? Para de ser uma surpresa. Você sabe que segunda e terça vendem mais M e G. Sabe que no fim do mês sobra P e GG. Sabe que depois do Dia das Mães precisa repor tal e tal grade. Você agenda a chegada de mercadoria, agenda a arrumação, agenda até o horário da equipe com base em dado real, não em achismo.

Qual o erro que mais vejo (e como não cair nele)?

O erro número um é achar que controle de estoque é coisa de loja grande. "Ah, eu só tenho 80 peças, não precisa disso tudo." Errado. Justamente porque você tem pouco, cada peça parada ou cada venda perdida dói mais.

Eu atendi uma loja de roupa infantil que tinha 120 peças no total. A dona achava que não precisava controlar por grade. Resultado: ela comprava sempre os mesmos tamanhos (2, 4, 6) porque eram os que ela lembrava que vendiam. Mas quando a gente puxou os dados de venda, descobriu que tamanho 8 vendia igual, só que ela nunca repunha porque "achava" que não saía. Deixou de ganhar uns R$ 15 mil no ano por puro achismo.

O segundo erro é começar o controle, mas não manter. Lança direitinho na primeira semana, depois relaxa, aí volta pro caderninho. Quando percebe, a planilha tá desatualizada e não serve mais pra nada. Se você vai fazer, tem que virar rotina inegociável: vendeu, baixou. Entrou mercadoria, lançou. Não tem meio termo.

O terceiro erro é não ensinar a equipe. Você monta um controle lindo, mas a vendedora não sabe mexer, ou acha que "dá no mesmo" anotar depois. Não dá. Senta com a equipe, explica por que isso importa, mostra como lançar, acompanha nos primeiros dias. Se a vendedora não comprar a ideia, o controle morre em uma semana.

E o quarto erro, que eu vejo demais: tentar controlar tudo de uma vez. Você tem 300 peças, 15 fornecedores, 5 anos de bagunça acumulada. Não tenta arrumar tudo num fim de semana. Começa pelas peças novas que estão entrando agora. Controla essas por grade direitinho. Quando pegar o jeito, aí você vai voltando e ajustando o estoque antigo aos poucos.

Eu já vi gente desistir porque quis fazer o inventário completo de tudo logo de cara. Passou três dias contando, digitando, e largou no meio porque não aguentou. Faz diferente: pega as 20 peças que mais vendem, controla essas por grade. Já vai sentir a diferença. Depois você expande.

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Perguntas frequentes

Como faço controle de estoque por grade em planilha?
Crie uma planilha com as colunas: Código do Produto, Nome, Cor, Tamanho, Quantidade e Localização. Cada linha representa uma combinação única de cor e tamanho. Ao receber mercadoria, lance cada grade separadamente. Ao vender, diminua a quantidade apenas da linha correspondente à grade vendida. Mantenha a planilha atualizada a cada movimentação para evitar divergências.
Qual a diferença entre controle de estoque comum e por grade?
O controle comum registra apenas a quantidade total de um produto, sem separar variações. O controle por grade registra cada combinação de tamanho e cor como um item independente. Isso permite saber exatamente quantas peças de cada variação você tem, evitando vender o que não existe e identificando quais grades precisam de reposição.
Como saber qual tamanho e cor repor no estoque?
Analise o histórico de vendas por grade. Identifique quais combinações de tamanho e cor vendem mais rápido e quais ficam paradas. Reponha prioritariamente as grades que giram mais, e reduza ou elimine a compra das que encalham. Um controle organizado por grade mostra claramente esse padrão de saída.
Quantas grades diferentes uma loja de roupas costuma ter?
Depende do mix de produtos. Uma loja pequena com 50 modelos, cada um em 3 cores e 4 tamanhos, já tem 600 grades. Lojas maiores ou com produtos complexos, como lingerie ou moda plus size, podem passar de 2 mil grades. Quanto maior o número, mais essencial é ter um controle automatizado e estruturado.
É possível controlar estoque por grade sem sistema?
Sim, mas exige disciplina rigorosa e planilha bem estruturada. Para lojas muito pequenas, com poucas variações e baixo volume de vendas, a planilha pode funcionar. Porém, à medida que o mix cresce ou o movimento aumenta, o controle manual se torna lento, sujeito a erros e consome tempo que poderia ser usado em vendas.

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